segunda-feira, 31 de julho de 2017

Achados bibliográficos

Achados bibliográficos, bem ao gosto dos bibliófilos, não é sempre que acontecem. Às vezes, ocorrem as descobertas na restauração de livros. Usando equipamentos especiais, mas nada complexos, é possível obter um rendimento extra na atividade de restauração. É o caso do uso das lentes de aumento, microscópio e demais técnicas de análise. A lupa de pala é um exemplo bem acessível. Ela ajuda a encontrar as evidências do valor afetivo nas marcas, dedicatórias e em outras características do objeto.
A magnificação do campo visual no trabalho de restauro é fundamental. O uso da ampliação da imagem ou, ao contrário, da capacidade de visão, proporciona aumento da percepção direta das superfícies dos objetos, oferece mais informação. Indo mais a fundo, é possível identificar a composição dos materiais visualmente e outros detalhes.
O achado - Na sequência de fotos podemos ver as assinaturas dos artistas gráficos que participaram da produção do livro em restauro. A surpresa estava bem ali, nos créditos da publicação, em letras pequenas. (Detalhe da foto)  Reparei que somente os desenhos dele estão protegidos pelo Copyright. A participação de Walt Disney é um pequeno achado numa obra tão rara, pelo menos em nossos dias. Certamente, milhares de exemplares foram impressos, mas poucos chegaram até nós. Esta coleção foi publicada em 1949 nos Estados Unidos e, em 1954, adaptada à língua portuguesa. Enfim, a perfeição está nos detalhes, no cuidado da produção e no acabamento. Na restauração de livros, procuro fazer o mesmo.
Outro detalhe técnico. Este exemplar sofreu um acréscimo de páginas no final, após a costura dos cadernos. Alguém viu que faltava um pedaço do conteúdo ou resolveram acrescentar depois. Evidencia disso é o caderno final do livro, que veio apenas colado no miolo. A integridade do fólio foi constatada usando a Lupa de pala. Foi um trabalho bem interessante e gratificante.

Folha de ante-rosto
Expediente
Detalhe da foto anterior
Acabamento esmerado das ilustrações.

O achado.

sábado, 24 de junho de 2017

As surpresas na restauração de livros

Agora mesmo terminei a restauração de uma bíblia do século 19, editada em alemão, em caracteres góticos. Um exemplar de colecionador. A primeira surpresa foi ao desmontar o livro e descobrir que o couro da lombada estava colado diretamente no dorso do livro. O que era para ser uma serviço de restauração da capa se tornou, então, uma restauração completa. Isso exigiu uma 'cirurgia' para descolar o dorso da lombada, milímetro por milímetro, caderno a caderno, até a desmontagem completa. Foram várias horas no deslocamento dos fólios até conseguir acesso à parte interna da lombada.
Feito isso, comecei a recuperar o couro, com hidratação, reforços internos, reparos, colagem e retoques. Além da limpeza, ao fazer os reparos nos cadernos descobri outra coisa interessante. A numeração das páginas recomeçou do zero depois de umas 800 páginas. O que me leva a concluir que são dois livros editados em um só volume, ou seja antigo e novo testamento.
Registrei a fase inicial da desmontagem, o lado interno da capa, o momento da costura (reaproveitando a furação original) e o aspecto final do trabalho.




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Redução do consumo como estratégia de resistência


Caros leitores, tempos realmente difíceis se aproximam dos brasileiros. Se os assalariados temem pelo futuro, imaginem a situação daqueles que nem isso tem.
Por isso, e dando continuidade à proposta que anima este blog desde a sua criação, quero estimular a mudança de atitude e de comportamento dos brasileiros em relação ao consumo de bens duráveis e outros itens de primeira necessidade.
Lembrando rapidamente a proposta deste blog, desde o início quis incentivar o reaproveitamento de materiais, o reuso, a restauração e outras atitudes que minimizem o impacto ambiental. Pois agora, quando o dinheiro está escasso, e a tendência é ficar ainda mais, a saída sugerida é reforçar a estratégia de resistência ao desperdício.
Fiquei sabendo que a Suécia está incentivando oficialmente o setor de serviços local, especialmente o de reparos e consertos de todo tipo de itens, desde sapatos até eletrodomésticos. Eles se deram conta do desperdício crescente e do custo deste processo enlouquecido de comprar para substituir itens que nem sempre são necessários.
Assim, quero retomar com força essa luta, que se resume em seis princípios fundamentais:


  • EVITAR o desperdício de materiais;
  • REDUZIR o descarte de resíduos não recicláveis;
  • AJUDAR na preservação de recursos não renováveis;
  • FREAR a escalada consumista;
  • NÃO alimentar o monstro consumista;
  • REAPROVEITAR materiais, isso inclui os livros, roupas e calçados.


Tudo isso junto, reunido e multiplicado para ter uma vida mais saudável, equilibrada e justa.
Consuma mais produtos orgânicos.
Prestigie o pequeno comércio local para fortalecer a economia interna.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tempos bicudos para o restaurador

Pouco tenho me dedicado ao blog, porque o tempo é escasso e as tarefas são muitas. Agradeço a atenção de todos. Na próxima semana vou participar do curso
METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO EM HISTÓRIA DA ARTE E
DA ARQUITETURA APLICADA AO RESTAURO MONUMENTAL
 ministrado pela Dra. Raquel Lacuesta Contreras, nos próximos  dias 01, 02 e 03 de junho, no Auditório da Faculdade de Arquitetura da  UFRGS.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Característica destacada da costura a mão

Estou voltando ao assunto da costura a mão porque é um ponto importante. Sem a costura não tem caderno 180º. Nas fotos que eu fiz aparecem os detalhes da costura na lombada dos cadernos universitários. As capas são meramente ilustrativas, mas a usabilidade do caderno é excelente porque dá para deixar aberto em qualquer página, que não rompe a folha.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Antigos e tradicionais encadernadores

Como os antigos e tradicionais encadernadores estão em extinção, às vezes penso que não vale a pena restaurar do ponto de vista financeiro, porque o trabalho não é remunerado de modo equivalente ao valor agregado, em termos de horas trabalhadas, ou em termos de expertise empregada em cada caso. Muitos vezes, não sabendo como proceder, tenho que pesquisar ou fazer ensaios até encontrar um solução. Recém terminei uma restauração parcial de um bíblia, que me consumiu horas e horas, além de criar uma série de novos problemas que tive de resolver. Tudo isso, no fundo não é só pelo pouco dinheiro, é claro. Dá satisfação trazer de volta ao uso os objetos de estimação. Então, ficamos por aqui.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Problemas da Restauração de Livros antigos

Tendo estado ausente deste espaço já há alguns meses, volto agora para tratar de um problema que tenho enfrentado na restauração de livros usados, em especial as bíblias - estes livros volumosos compostos com papel à base de celulose e de baixa gramatura.
A parte o problema da precificação do serviço - nunca é possível cobrar exatamente o quanto vale o trabalho de restauração - o que pesa mais é ter a possibilidade de executar o trabalho com alguma precisão. No caso, o que ocorre é a deterioração do papel somada à infiltração de cola, resultante de uma tentativa de reparo anterior. São várias páginas coladas. Dado esta característica, já na desmontagem do exemplar ocorreram problemas com o papel, que se dissolve quando umedecido.
Nesta situação, em que se perde muito material durante a intervenção, devemos questionar a validade do procedimento. É preciso saber o quanto de perda é possível aceitar, pois em toda restauração de livro se perde um pouco de material. No limite, casos assim podem ser recusados pelo restaurador, tanto pelo custo do trabalho como pela menor chance de fazer um bom trabalho.
Aguardo comentários. Se puderem, cliquem nos meus anunciantes.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Molesquines

Sem ter como produzir mais, por falta de tempo e de mãos, os posts estão cada vez mais raros. Mas o trabalho nunca para.


O revestimento dos molesquines é feito com papel de parede reaproveitado.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

DE LIVROS E DO TEMPO




Em deferência ao articulista, Mauro Santayana, republico o artigo que ele escreveu para o site http://www.maurosantayana.com/

(Hoje em Dia) – As tribulações de Lucius Apuleius, em O Asno de Ouro; Sherazade e seus mágicos relatos de As Mil e uma Noites; os heróis imortais da China ancestral do Romance dos Três Reinos; a impositiva beleza da Princesa Kaguya, do Japão milenar do Conto do Cortador de Bambu; o sal e o corte de Os Lusíadas; a ironia e a graça de Rabelais, em Gargântua e Pantagruel; as aventuras de Robinson Crusoé, de Defoe, ou do inesquecível Lemuel, das Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift; nada disso existiria, nenhum desses personagens teria servido de amigo, de matéria para os sonhos, de solidária companhia, para milhões de homens, ao longo dos séculos, se os livros não os tivessem trazido até aqui.

E o que dizer de Guerra e Paz, de Tolstoi, de O Corcunda de Notre Dame, de A Queda da Casa de Usher, de Os Miseráveis, ou de Germinal?

Ou de Garcia Marquez, Eduardo Galeano, Machado de Assis, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, João Guimarães Rosa, Wander Piroli, Murilo Rubião ?

Os livros são como o próprio Aleph, de Borges, que concentra toda a realidade do universo em único ponto, como eles reúnem a experiência e a imaginação dos homens em suas páginas, letras e linhas.

Tecido com o coração das longas hastes, colhidas às margens do Nilo, por diligentes fabricantes de papiro; lixado, desbastado e prensado, até o couro se transformar em pergaminho; abrigado, por tanto tempo, na escuridão das câmaras mortuárias das pirâmides egípcias e nas prateleiras tubulares da Biblioteca de Alexandria; copiado, à luz de velas, e das amplas janelas dos scriptoriums das abadias medievais, por gerações de monges que nele teceram a delicada e persistente trama dourada das iluminuras, desenhando, com longas penas de ganso, serifa a serifa, as letras dos textos bíblicos, da filosofia, da ciência, da história; escrito pelos revolucionários, contrabandeado pelos perseguidos, nau e asas dos injustiçados, leme dos que mudaram o mundo, o livro continuará, conosco, no futuro.

Nossos netos poderão achar os mesmos textos nas frias nuvens de bits, nas telas dos tablets e dos smartphones, ocultos nos algoritmos que as máquinas guardam e traduzem, até serem quebradas e derretidas para fazer novas memórias, placas e processadores.

Mas nada poderá substituir, ou superar, a sensação de imaginar, ao acariciar uma capa antiga, a vida de quem a encadernou.

De descobrir, ao abrir um volume de aventuras, a dedicatória, escrita, com esmero, a tinta de tinteiro, por um pai para seu filho de 10 anos.

Ou de localizar a letra do primeiro, do segundo, de um terceiro dono – nome, sobrenome e ano – como a marcar e afirmar, em uma lápide, ou numa carta jogada em uma garrafa ao oceano: eu existi. Como você, estive por aqui. Como você, tive este livro entre as mãos. Ria com ele, chore, aprenda e sonhe. Escreva seu nome nesta página de rosto. Aproveite a leitura.